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Corrida Contra o Tempo

Corrida Contra o Tempo

12
Jun18

Barquinho de Papel

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         Era segunda-feira, ía entrar à mesma hora de sempre, conviver com as mesmas pessoas de sempre ou parecidas e acordara com a mesma falta de vontade de sempre. Tinha tudo para ser um dia (a)normal. A única coisa que mudava constantemente eram os estagiários que entravam e saíam de x em x tempo, mas até a isso eu já estava habituado. O truque era não me apegar a ninguém, ser apenas cordeal quando fosse mesmo necessário e continuar a fazer o meu trabalho. Afinal de contas, mais cedo ou mais tarde eles iam-se embora e eu sou péssimo com despedidas. Parecia simples. Contudo, naquele dia aparentemente vulgar, tive a (in)felicidade de me apresentarem mais uns quantos estagiários que surgiram não sei de onde (parecia que se multiplicavam de um dia para o outro, tal como uma praga) e no meio deles cruzei o olhar contigo. Estavas genuinamente sorridente, com um olhar que desarma qualquer um. E como soldado que nunca fui, senti-me invadido. Mas quem és tu?! Cumprimentei-vos, demorando o meu olhar no teu por breves segundos e continuei o meu trabalho. Os dias foram passando e, quando dei por mim, fazias parte da minha rotina. Ía trabalhar com mais vontade, talvez por saber que te ía ver por meros segundos. Segundos esses que bastavam para trocarmos palavras simples, mas que me faziam sorrir. A culpa foi do teu sentido de humor que depressa se tornou um dos motivos do meu sorriso. Não admiti a mim mesmo que era por ti que até chegava antes da hora nem que por vezes dizia algo só para te ouvir reclamar comigo. Havia dias em que mal te falava, tentando gerir este conflito interior que me assombrava. O relógio não pára e eu sabia que mais cedo ou mais tarde viria a despedida de que tanto queria fugir. Mesmo assim, mantinhas a tua postura. Dirigias-te a mim na 3ª pessoa e nunca pelo primeiro nome. Cumprimentavas-me mesmo que mal te respondesse e perguntavas-me como é que eu estava. Tratavas-me sempre de forma tão formal e cordeal e isso tirava-me do sério. Era como se erguesses um muro à tua volta e te abrigasses nele enquanto me acenavas lá no alto. Eu queria ir ao teu encontro, mas escorregava sempre que tentava. Sentia-me um tolo desmedido que já punha em causa tudo o que sentia. Não contava que aparecesses na minha vida e não queria acreditar no que te ias tornando nela. Aliás, se o quisesse definir, ainda hoje não o saberia fazer. O problema foi habituar-me à tua presença. Planeei sempre tudo, menos a ti. E como ser humano que sou, temo o inesperado; temia-te a ti. Eu juro que tentei fugir, mas tu encontravas-me sempre. Talvez, (in)conscientemente, não me escondesse verdadeiramente de ti. No fundo parecia que sorrias também de forma diferente para mim, mas nunca tive coragem de confirmar. Deixei os dias passarem, contentei-me em ser um mero espectador, submisso, e não sei até que ponto tomei a melhor decisão. Mas foi a decisão que tomei. Um dia cheguei e tu estendeste-me a mão. Nela continhas um débil barquinho de papel com o meu nome e umas palavras que nem fui capaz de ler no momento. A verdade é que eu até gostava desse tipo de simbolismos, mas não quis dar parte fraca ao admiti-lo. Peguei nele e virei-lhe as costas. Naquele exato momento, foi como se virasse costas a mim mesmo. No final do dia, procurou-me, encorralando-me, para se despedir de mim. Meio desajeitado, disse-lhe que fosse feliz. Por momentos senti que ela tinha algo para me dizer, ou então fui eu que desejei que ela me dissesse que queria ser feliz comigo. Sorriu para mim. Leu nos meus olhos algo que nem eu sabia que estava escrito, desejou-me tudo de bom e foi embora. Tinha dado as doze badaladas, era a altura da Cinderela voltar para a sua vida rotineira, longe do seu príncipe (des)encantado. Suspirei. Queria ter-lhe dito algo mais inspirador, algo que talvez fizesse com que ela me guardasse algures num canto remoto do seu coração, mas calei-me. Cheguei a casa e li o barquinho de papel. Dizia que tinha sido importante conheceres-me. Remeti-me à insignficância que me atribuí, guardei-o, pedi para que a minha curta memória não se demorasse a esquecer-te e adormeci. Sonhei que velejavas num barquinho de papel para longe e que eu apenas acenava da margem do rio, pedindo baixinho que um dia voltasses por mim.

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